Afasia, um desafio para a comunicação e para a vida quotidiana
A afasia é uma das perturbações da linguagem mais complexas e angustiantes, tanto para a pessoa afetada como para os que a rodeiam. Frequentemente causada por um acidente vascular cerebral, mas também por um traumatismo craniano, um tumor cerebral ou certas doenças neurológicas, afecta a capacidade de falar, compreender, ler e escrever.
Para a família e os amigos, esta perturbação pode ser confusa: a pessoa continua perfeitamente consciente, a sua inteligência intacta, mas já não consegue encontrar as palavras ou compreender certas mensagens. Esta dissociação entre o pensamento e a linguagem cria uma barreira invisível que isola, frustra e perturba a vida social, familiar e profissional.
Em França, estima-se que cerca de 300.000 pessoas vivam com afasia, a maioria na sequência de um acidente vascular cerebral. No entanto, esta doença continua a ser pouco conhecida e muitas vezes mal compreendida. Demasiadas pessoas continuam a pensar erradamente que uma pessoa com afasia “não compreende nada”, quando na realidade é a linguagem que é afetada, não o pensamento.
Neste artigo, vamos :
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explica os diferentes tipos de afasia,
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explora os seus sintomas e consequências,
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propõe estratégias de comunicação,
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apresenta o papel dos profissionais e dos familiares,
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destaca o FERNANDO, um programa inovador de treino do cérebro para doentes pós-AVC.
O objetivo é fornecer chaves concretas para uma melhor compreensão e apoio às pessoas afectadas por esta perturbação da linguagem.
Compreender a afasia: o essencial
Antes de falar sobre reabilitação ou estratégias de comunicação, é importante compreender o que é a afasia e porque é que não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas.
Uma origem neurológica
A afasia ocorre quando certas áreas do cérebro, geralmente localizadas no hemisfério esquerdo, são danificadas. Estas áreas estão envolvidas na :
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produção de linguagem oral,
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Compreende as palavras,
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ler e escrever,
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construção de frases.
Um AVC que afecte estas zonas pode, portanto, interromper brutalmente a capacidade de falar ou de compreender.
Os diferentes tipos de afasia
As afasias não são todas iguais. Os neurologistas distinguem várias formas:
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Afasia de Broca (não fluente)
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Fala devagar, frases curtas, fala entrecortada.
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Compreende relativamente bem.
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Exemplo: em vez de dizer “Gostava de comer uma maçã”, a pessoa diz “Maçã… come… eu”.
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Afasia de Wernicke (fluente)
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Fluida, mas por vezes incoerente.
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As palavras utilizadas podem ser incorrectas ou inventadas.
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A compreensão da linguagem é frequentemente afetada.
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Afasia global
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A mais grave: afecta tanto a expressão como a compreensão.
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Comunicação oral muito limitada.
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Afasia anómica
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Dificuldade em encontrar a palavra certa, especialmente nomes de objectos.
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As frases são gramaticalmente corretas, mas carecem de precisão.
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Manifestações muito variáveis
Duas pessoas com afasia podem ter perfis completamente diferentes.
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Fala pouco mas compreende quase tudo.
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O outro fala muito, mas de forma incoerente.
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Alguns mantêm a capacidade de ler mas perdem a capacidade de escrever, ou vice-versa.
Compreender a afasia significa aceitar que não se trata de uma perturbação única, mas de uma constelação de dificuldades que variam consoante a área do cérebro afetada. Esta compreensão é essencial para adaptar a comunicação, escolher as estratégias corretas e evitar mal-entendidos.
Sintomas e impacto na vida quotidiana
A afasia é mais do que um problema de linguagem. Afecta todos os aspectos da comunicação e pode alterar radicalmente a vida quotidiana. Os sintomas variam muito de pessoa para pessoa, mas certos sinais são frequentes.
As dificuldades mais comuns incluem
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procura de palavras: a pessoa sabe o que quer dizer mas não consegue encontrar a palavra certa
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compreensão da linguagem falada, especialmente quando a conversa é rápida ou quando há ruído de fundo
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ler e escrever: algumas pessoas conseguem falar mas já não conseguem ler uma frase simples
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construção de frases: as frases podem estar incompletas, desorganizadas ou sem coerência
Estes sintomas conduzem frequentemente a uma enorme frustração para as pessoas com afasia. Imagina querer contar uma história simples e não conseguir encontrar as palavras. Isto pode levar a sentimentos de confinamento e a uma perda de auto-confiança.
Por exemplo, a Sophie, de 58 anos, teve um AVC há dois anos. Compreende tudo o que lhe é dito, mas desde o acidente tem dificuldade em falar. Por vezes, utiliza gestos ou desenhos para se fazer entender. Diz que o mais difícil não é o facto de não poder falar, mas sim o facto de “as pessoas pensarem que eu não percebo nada”. Infelizmente, esta situação é muito frequente: a deficiência linguística é muitas vezes confundida com uma deficiência intelectual, o que aumenta o mal-estar da pessoa.
Para além das dificuldades de comunicação, a afasia tem também um impacto social e emocional considerável. Muitas pessoas com afasia acabam por se isolar das actividades sociais porque as conversas se tornam demasiado complicadas. Telefonemas, refeições em família, saídas com amigos… tudo se torna uma fonte de ansiedade. Pouco a pouco, a pessoa arrisca-se ao isolamento, quando a manutenção dos laços sociais é essencial para a qualidade de vida e mesmo para a recuperação.
A família e os amigos também são afectados. Os cônjuges, os filhos e os amigos sentem-se por vezes impotentes perante as dificuldades de comunicação. Querem fazer o que é correto, mas nem sempre sabem como. Esta falta de compreensão pode provocar tensão, frustração e até exaustão emocional quando a reabilitação demora muito tempo.
Em conclusão, os sintomas da afasia vão muito para além da linguagem: afectam a autoestima, as relações sociais, a vida familiar e profissional. É por isso que é absolutamente essencial proporcionar um tratamento abrangente que vá para além da reabilitação da linguagem.
A comunicação não-verbal, um aliado precioso
Quando as palavras já não são fáceis de pronunciar, a linguagem corporal torna-se uma ponte essencial entre a pessoa com afasia e as pessoas que a rodeiam. A comunicação não se resume às palavras: os gestos, as expressões faciais, a entoação da voz, o olhar… todos estes elementos adquirem uma importância vital.
Para as pessoas com afasia, a comunicação não verbal pode ser uma verdadeira tábua de salvação. Quando é impossível formular uma frase completa, um simples gesto ou expressão facial pode ser suficiente para transmitir uma emoção ou uma necessidade. Por exemplo, apontar para um copo de água para dizer “Tenho sede”, ou acenar com a mão para dizer “Vem” ou “Pára”.
As pessoas que te rodeiam têm de aprender a interpretar estes sinais. Isto requer observação, paciência e, por vezes, um pouco de criatividade. Certos gestos são universais, mas cada pessoa com afasia pode desenvolver os seus próprios códigos. Nalgumas famílias, acabam por criar uma linguagem híbrida de palavras, sinais e imagens que só pode ser compreendida pelo seu círculo mais próximo.
Os recursos visuais também reforçam esta comunicação. Pictogramas, fotografias ou mesmo quadros de comunicação com imagens simples ajudam a ultrapassar o bloqueio das palavras. Por exemplo, um quadro pode conter imagens para as necessidades básicas: comer, beber, dormir, sair de casa, ir ao médico, etc. Basta que a pessoa aponte para a imagem para se fazer entender.
Existem até aplicações digitais que oferecem bibliotecas de imagens e pictogramas para construir frases visuais. Utilizadas num tablet, oferecem uma autonomia suplementar e reduzem o stress associado às situações de comunicação.
Para além de facilitar a troca de informações, a comunicação não verbal ajuda a preservar o vínculo afetivo. Um sorriso, uma carícia na mão, um olhar atento podem dizer “estou a ouvir, estou aqui para ti” sem quaisquer palavras. Para uma pessoa que perdeu parte da sua capacidade de falar, este apoio não verbal é essencial para que não se sinta isolada ou incompreendida.
Em conclusão, a comunicação não-verbal não substitui a fala, mas complementa-a e, por vezes, torna-se o principal meio de expressão. Incentivar a sua utilização desde o início do processo de reabilitação ajuda a manter o diálogo e a reduzir a frustração associada à afasia.
Estratégias para comunicar melhor com pessoas que sofrem de afasia
Comunicar com uma pessoa com afasia pode parecer difícil no início, mas há muitas técnicas que podem ajudar a tornar as trocas mais fluidas e menos stressantes. Estas estratégias são utilizadas por terapeutas da fala, familiares e, por vezes, até ensinadas em workshops de comunicação para famílias e prestadores de cuidados.
Eis os principais conselhos a pôr em prática:
1. Fala devagar e com clareza
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Fala mais devagar do que o habitual, sem exagerar ou infantilizar.
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Faz pausas entre as frases para dar tempo para compreender e responder.
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Articula corretamente, mas fala num tom natural para evitar que a conversa pareça artificial.
Exemplo: em vez de dizer “Queres ir dar um passeio no parque esta tarde?”, diz “Queres ir ao parque?”, articulando e fazendo uma pausa após a pergunta.
2. Simplifica o vocabulário e as frases
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Utiliza frases curtas com uma estrutura simples.
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Evita o jargão, as expressões complexas ou as frases com duplo sentido.
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Repete as palavras-chave várias vezes, se necessário.
Exemplo: diz “Doutor. Amanhã. 3 p.m.” em vez de “Não te esqueças que amanhã às 3 p.m. temos uma consulta com o médico para o teu check-up anual”.
3. Faz perguntas fechadas em vez de abertas
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As perguntas que exigem uma resposta “sim” ou “não” são mais fáceis de gerir.
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As perguntas abertas podem ser demasiado exigentes para alguém que está à procura das palavras certas.
Exemplo: “Queres um café?” (resposta simples) em vez de “O que queres beber?” (resposta complexa).
4. Usa gestos para apoiar a linguagem oral
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Acompanha as palavras com um gesto ou pictograma claro.
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Mostra o objeto de que estás a falar para te ajudar a compreender.
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Incentiva as pessoas com afasia a exprimirem as suas necessidades da mesma forma.
Por exemplo, apontar para a chávena quando dizes “café” permite que a pessoa compreenda imediatamente o tema da conversa.
5. Evita ambientes ruidosos
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O ruído de fundo dificulta a compreensão e aumenta o stress.
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Escolhe um lugar calmo para falar, especialmente para as conversas importantes.
Por exemplo, desliga a televisão ou o rádio quando estiveres a conversar para evitar uma sobrecarga auditiva.
6. Dá tempo para responder
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As pessoas com afasia precisam por vezes de vários segundos para formular a sua resposta.
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Interrompê-los ou falar por eles pode desencorajá-los e frustrá-los.
Exemplo: esperar calmamente depois de uma pergunta em vez de a reformular demasiado depressa ou de adivinhar a resposta.
7. Reformula, se necessário
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Se a pessoa não entender, repete de uma forma diferente em vez de repetir exatamente a mesma frase.
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Mudar a palavra ou simplificar a estrutura pode ajudar a desbloquear a compreensão.
Exemplo: se a frase “Queres ir dar um passeio?” não funcionar, experimenta “Vamos dar um passeio lá fora?
8. Valoriza todas as tentativas de comunicação
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Não corrijas todos os erros: isso pode desencorajar a pessoa em causa.
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Felicita os teus esforços, mesmo que a frase não seja perfeita.
Exemplo: se a pessoa disser “Eu… parque… amanhã”, responde “Sim, queres dizer que queres ir ao parque amanhã? Muito bem!” para validares e encorajares.
9. Utiliza recursos visuais
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Cadernos com imagens, aplicações para tablets, fotografias: tudo o que facilite o diálogo é útil.
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Alguns profissionais criam “cadernos de comunicação” personalizados com as palavras e imagens mais utilizadas no dia a dia.
10. Mantém o contacto visual e uma atitude positiva
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Olha a pessoa nos olhos quando falas com ela para mostrar que estás a ouvir.
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Sorri, acena com a cabeça e mostra paciência: isto cria uma atmosfera tranquilizadora.
Por exemplo: mesmo que a pessoa seja lenta a responder, manter a calma e a atenção encoraja a continuação da conversa.
Em conclusão, estas estratégias não requerem competências específicas, mas transformam a comunicação. Permitem que as pessoas com afasia recuperem a sua confiança, participem em conversas e reduzam a frustração associada à perda da linguagem.
A utilização de ajudas visuais e escritas
Para as pessoas com afasia, as palavras podem tornar-se inacessíveis, mas as imagens e a escrita simples são muitas vezes mais fáceis de compreender. As ajudas visuais e escritas são, portanto, instrumentos poderosos para facilitar a comunicação e tornar a vida quotidiana menos frustrante.
Porque é que os recursos visuais são tão eficazes?
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O cérebro processa imagens mais rapidamente do que a linguagem falada.
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Os pictogramas e as fotografias facilitam a compreensão sem necessidade de uma frase completa.
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Proporcionam um ponto de apoio concreto quando as palavras não chegam.
Muitas famílias referem uma clara redução dos mal-entendidos logo que começam a utilizar os recursos visuais em casa.
Os diferentes tipos de apoio visual
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Quadros de comunicação: são compostos por imagens ou símbolos que representam necessidades quotidianas (comer, beber, dormir, ir ao médico, etc.). A pessoa aponta simplesmente para a imagem correspondente.
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Cartões ilustrados: cabem na mão e podem ser utilizados em qualquer contexto, incluindo ao ar livre.
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Aplicações para tablets: algumas aplicações oferecem bibliotecas de imagens e pictogramas, com a possibilidade de construir frases visuais simples.
Um exemplo concreto: uma aplicação pode apresentar pictogramas como “quero”, “beber” e “água”. O utilizador clica nas imagens na ordem certa para formar uma frase, que o tablet lê em voz alta.
O papel da palavra escrita na comunicação
Mesmo quando a fala é difícil, algumas pessoas com afasia mantêm a capacidade de ler e escrever. A escrita pode então tornar-se um meio alternativo de :
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explica uma ideia escrevendo-a num caderno,
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mostra as palavras-chave em vez de as dizer,
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utiliza listas para compras, compromissos e medicação.
Um simples bloco de notas ou um quadro branco pode ser uma ferramenta preciosa. Por exemplo, se a pessoa não for capaz de dizer “consulta médica amanhã”, pode escrevê-la ou mostrá-la numa nota preparada com antecedência.
Combinar a comunicação visual e escrita
Em muitos casos, a combinação de imagens e palavras escritas dá os melhores resultados. A imagem ajuda a compreender o conceito e a palavra escrita apoia a memória linguística.
Eis um exemplo concreto: num cartão “comer”, podes ver um prato de comida e a palavra “comer” escrita em letras grandes.
Criar um ambiente visual em casa
Os familiares podem colocar cartazes com palavras e imagens pela casa:
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“cozinha” com uma fotografia de utensílios,
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“casa de banho” com uma imagem de um lavatório,
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“quarto” com uma fotografia de uma cama.
Isto permite que as pessoas com afasia se orientem e se exprimam mais facilmente, mesmo fora de uma conversa direta.
As ajudas visuais e escritas não substituem a fala, mas abrem novas vias de comunicação. Dão às pessoas com afasia a oportunidade de exprimirem as suas necessidades, de participarem em intercâmbios e de recuperarem um certo grau de independência na sua vida quotidiana.
Paciência e escuta ativa: duas qualidades essenciais
Viver com afasia leva tempo, muito tempo. Os progressos são muitas vezes lentos, por vezes irregulares, e isso pode ser frustrante tanto para a pessoa como para os que a rodeiam. É por isso que a paciência é uma qualidade fundamental em todo o apoio.
Para os que lhes são próximos, tens de aceitar que a pessoa pode precisar de mais tempo para compreender uma frase, encontrar as palavras certas ou responder a uma pergunta. Os silêncios podem parecer longos, mas são necessários para permitir que o cérebro faça o seu trabalho. Interromper demasiado depressa ou terminar as frases pela pessoa pode criar um sentimento de impotência e de perda de controlo.
A escuta ativa completa esta paciência. Não se trata apenas de ouvir as palavras ditas, mas também de observar as expressões faciais, os gestos, o contacto visual – tudo o que possa dar uma pista sobre o que a pessoa está a tentar dizer. Muitas vezes, uma palavra ou gesto aproximado acompanhado de um determinado tom de voz pode ser usado para adivinhar a intenção e validar a mensagem.
Eis algumas dicas simples para praticares a paciência e a escuta ativa:
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Vira-te para a pessoa e olha para ela enquanto fala, para mostrar que lhe estás a dar toda a tua atenção.
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Acena com a cabeça, sorri, mostra sinais visuais de que estás realmente a ouvir.
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Repete ou reformula o que percebeste para confirmar a mensagem: “Queres dizer que foste ao parque?”
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Dá tempo à pessoa para aprovar ou corrigir, mesmo que o processo seja lento.
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Evita mostrar sinais de impaciência, como suspirar, olhar para o relógio ou falar com outra pessoa enquanto falas.
Por exemplo, se o Paulo, de 65 anos, tiver dificuldade em dizer “Tenho uma consulta amanhã”, pode simplesmente dizer “consulta… amanhã… eu”. Em vez de adivinhar demasiado depressa, a mulher pode responder: “Queres dizer que tens uma consulta amanhã?” para validar e encorajar a comunicação.
No fim de contas, a paciência e a escuta ativa não são apenas técnicas: são uma prova de respeito. Mostra à pessoa com afasia que as suas palavras, mesmo incompletas, têm valor e que continua a ser um interlocutor de pleno direito.
As terapias e os profissionais envolvidos
A reabilitação da afasia não depende de uma única pessoa, mas de uma equipa multidisciplinar. Cada pessoa traz um conhecimento complementar para ajudar a pessoa a recuperar o máximo de autonomia possível e a melhorar a sua qualidade de vida.
O profissional mais frequentemente envolvido é o terapeuta da fala. Avalia o tipo de afasia, propõe exercícios adequados e trabalha a compreensão, a expressão oral, a leitura e a escrita. As sessões podem ser individuais ou em grupo, consoante as necessidades do doente. O terapeuta da fala utiliza vários métodos: repetição de palavras, jogos de papéis, diálogos simulados, recursos visuais, exercícios em computador, etc. O objetivo não é apenas “reaprender a falar”, mas também restaurar a confiança na comunicação.
Para além da terapia da fala, os neuropsicólogos desempenham um papel importante. Avalia a memória, a atenção, a concentração, a lógica e outras funções cognitivas que também podem ser afectadas após um AVC. Os seus testes permitem adaptar os exercícios às capacidades reais do paciente e, muitas vezes, trabalham em conjunto com os terapeutas da fala para oferecer uma reabilitação coerente.
Os terapeutas ocupacionais trabalham para adaptar a vida quotidiana: ajudam as pessoas a utilizar ferramentas de comunicação, a organizar o seu espaço de vida e a recuperar a sua independência nas actividades diárias. Por exemplo, podem oferecer livros de comunicação personalizados, com imagens e palavras adaptadas às necessidades da pessoa, ou aplicações específicas num tablet.
Os fisioterapeutas são essenciais quando o AVC também causou problemas motores. Trabalha a coordenação, a mobilidade e a respiração. Esta última é muito útil para melhorar a fala, porque uma voz clara e bem projectada depende de uma respiração eficiente.
Por último, os psicólogos dão apoio emocional à pessoa e à sua família. A afasia pode levar a uma perda de confiança, ansiedade e até depressão. Falar sobre estas dificuldades, exprimir as emoções e aprender a geri-las é uma fase importante do processo global de reabilitação.
Em suma, cada profissional tem um papel específico:
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O terapeuta da fala para a linguagem.
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O neuropsicólogo para as funções cognitivas.
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Terapeutas ocupacionais para a autonomia e as ferramentas.
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O fisioterapeuta do corpo e da respiração.
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O psicólogo para apoio emocional.
O trabalho em equipa permite-nos prestar cuidados abrangentes e coerentes, em que a pessoa com afasia progride em vários aspectos ao mesmo tempo, em vez de o fazer isoladamente.
FERNANDO: o programa de treino cerebral para pacientes pós-AVC
FERNANDO é uma das ferramentas mais avançadas disponíveis para complementar a reabilitação tradicional. Desenvolvido pela DYNSEO, FERNANDO é um programa de estimulação cognitiva destinado a pessoas com problemas de linguagem, de memória ou de concentração na sequência de um acidente vascular cerebral ou de uma lesão cerebral. O seu objetivo é claro: oferecer uma forma de reeducação divertida, progressiva e personalizada, acessível a todos, incluindo os idosos.
FERNANDO está disponível como uma aplicação para tablet. Esta escolha não é negligenciável: o tablet é intuitivo, fácil de utilizar e não requer conhecimentos técnicos específicos. Para quem não se sente à vontade com computadores, é muito mais acessível do que um computador.
Principais funções do FERNANDO
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Jogos de memória: adaptados ao nível da pessoa, trabalham a memorização de palavras, imagens e sequências lógicas.
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Exercícios de língua: para te ajudar a desenvolver o vocabulário, a compreensão e a construção de frases.
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Actividades de concentração e atenção: para melhorar a capacidade de manter a concentração numa tarefa, uma área frequentemente enfraquecida após um AVC.
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Feedback personalizado: FERNANDO regista o progresso, sugere níveis adequados e encoraja o utilizador com mensagens positivas.
Uma das grandes vantagens do FERNANDO é o facto de ser progressivo. Os primeiros exercícios são rápidos e simples, para que o utilizador não desanime. Depois, à medida que fores conseguindo, a dificuldade aumenta, o que estimula o cérebro sem criar demasiada pressão.
Como é que o FERNANDO se enquadra na reabilitação
Os terapeutas da fala e os neuropsicólogos recomendam frequentemente exercícios diários para conseguir um progresso duradouro. Mas entre as sessões de reabilitação, pode ser difícil encontrar actividades adequadas. É aí que entra o FERNANDO:
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Podes jogar durante 5 a 15 minutos por dia, ao teu ritmo.
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A família e os amigos podem acompanhá-lo, transformando o exercício num momento de partilha.
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Os resultados são evidentes: fala mais fluente, melhor memória, confiança renovada.
Por exemplo, o Luc, de 62 anos, começou a utilizar o FERNANDO três meses após o AVC. No início, não conseguia nomear objectos simples. Após algumas semanas de jogos diários, encontra a palavra “cadeira” quando vê uma imagem, o que não conseguia fazer há meses. Este pequeno êxito devolveu a confiança a toda a família.
O aspeto emocional: um fator-chave
Um ponto importante é o facto de o FERNANDO não se limitar a exercícios técnicos. As mensagens de incentivo, a monitorização dos progressos e o aspeto lúdico tornam a reabilitação menos intimidante e mais motivadora. Para muitos utilizadores, redescobrir o prazer de aprender é um passo essencial para a recuperação.
Em suma, o FERNANDO não substitui as sessões com profissionais, mas é um complemento eficaz. Acessível, motivador e personalizável, oferece uma solução moderna para continuar a progredir todos os dias, mesmo em casa.
O papel central da família e do apoio social
A afasia afecta não só a pessoa em causa, mas também toda a sua família e, por vezes, até o seu círculo de amigos. Perder as palavras, ter dificuldade em fazer-se entender ou em compreender os outros pode levar a uma rutura da comunicação e a um isolamento progressivo da pessoa. É por isso que o apoio dos entes queridos e a manutenção dos laços sociais são essenciais em todas as fases do processo de reabilitação.
O primeiro papel da família é manter-se presente. Passar algum tempo juntos e continuar com as actividades habituais, mesmo com adaptações, ajuda as pessoas com afasia a não se sentirem excluídas. As refeições em família, os jogos de tabuleiro e os passeios são oportunidades de comunicação que complementam as sessões de terapia da fala ou os exercícios com ferramentas como o FERNANDO.
O segundo papel dos familiares éadaptar a sua forma de comunicar. Muitos familiares referem que aprenderam a falar mais devagar, a fazer perguntas simples, a utilizar gestos, desenhos ou mesmo livros de comunicação para se fazerem entender. Estes esforços podem parecer pequenos, mas criam um ambiente mais calmo e tranquilizador para a pessoa com afasia.
Também é importanteencorajar a pessoa a participar ativamente na conversa, mesmo que não fale muito. Por exemplo, podes pedir-lhe que escolha entre duas opções através de um gesto ou de um cartão ilustrado, ou que aponte para algo de que precisa. Cada participação, mesmo que seja mínima, reforça a autoestima e evita que a pessoa se feche em si própria.
O apoio emocional é igualmente crucial. Após um AVC, algumas pessoas sofrem um verdadeiro choque emocional: sentem-se diminuídas, receiam deixar de ser compreendidas e temem perder os amigos. As pessoas que lhes são próximas devem estar atentas a estes sinais de angústia, encorajando pequenas vitórias e recordando-lhes que o progresso leva tempo.
Por último, é essencial manter uma vida social ativa. Clubes de lazer, associações de doentes e grupos de conversação para pessoas com afasia oferecem espaços onde a comunicação é facilitada e todos se sentem compreendidos. Estas actividades evitam o isolamento e aumentam a moral, o que também favorece a recuperação cognitiva.
Em suma, a família e os amigos não são meros espectadores: são parte integrante da reabilitação. A sua atitude, paciência e apoio emocional podem fazer uma enorme diferença no progresso e bem-estar da pessoa com afasia.
Adaptar o ambiente para uma melhor comunicação
O ambiente em que vive uma pessoa com afasia desempenha um papel muito importante na sua capacidade de comunicar e de recuperar a sua independência. Uma casa ou um ambiente demasiado barulhento, mal organizado ou cheio de distracções pode tornar a comunicação muito mais difícil, mesmo que as pessoas próximas da pessoa já estejam a utilizar boas estratégias.
O primeiro passo é reduzir as distracções sonoras. A televisão ou o rádio em segundo plano dificultam a compreensão, especialmente quando várias pessoas estão a falar ao mesmo tempo. É melhor desligares os aparelhos ruidosos durante as conversas importantes ou mudares-te para uma sala mais sossegada para facilitar a troca de impressões.
Em seguida, é útil tornar o espaço visual mais legível. Por exemplo, se colocares etiquetas com palavras e imagens nas portas ou nos armários, é mais fácil para as pessoas com afasia orientarem-se e nomearem os objectos. Podes escrever “cozinha” na porta correspondente, “armário” no armário, ou colocar imagens de alimentos nas caixas para facilitar o reconhecimento.
Existem também quadros de comunicação na parede, colocados na cozinha ou na sala de estar, onde a pessoa pode mostrar imagens para exprimir as suas necessidades: comer, beber, sair, ir ao médico, etc. Isto evita longas explicações quando as palavras não vêm.
Para algumas pessoas, a organização de um espaço dedicado à comunicação é muito útil. Este espaço pode conter :
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um quadro branco com um marcador para escrever ou desenhar
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um caderno com fotografias da família, dos amigos e dos locais que visita frequentemente
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um tablet com uma aplicação como o FERNANDO ou um quadro de pictogramas
A pessoa sabe que pode utilizar este espaço para preparar as suas ideias, escrever uma nota ou mostrar uma imagem quando não consegue falar.
Por último, é importanteadaptar os momentos em que falas. Falar numa sala silenciosa, com luz suficiente para ver claramente os gestos e as expressões faciais, e evitar as alturas em que a pessoa está cansada, torna a comunicação mais eficaz.
Em suma, a adaptação do ambiente não é complicada: basta um pouco de organização, etiquetas, ajudas visuais e tempo de silêncio para tornar a vida quotidiana muito mais fácil para uma pessoa com afasia.
Recursos disponíveis e associações
Viver com afasia não significa enfrentar as dificuldades sozinho. Existem muitos recursos disponíveis para apoiar as pessoas afectadas e as suas famílias, incluindo informações, workshops, ajuda financeira e grupos de discussão. Conhecê-los dá-te acesso a conselhos práticos, serviços especializados e uma rede de apoio valiosa.
Em França, várias associações desempenham um papel importante:
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França AVC: esta associação nacional presta informações sobre os acidentes vasculares cerebrais, as suas consequências e as diferentes fases da reabilitação. Organiza também grupos de discussão para os doentes e suas famílias, bem como iniciativas de sensibilização para o público em geral.
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Fédération Nationale des Aphasiques de France (FNAF): defende os direitos das pessoas com afasia, oferece workshops de conversação e formação para cuidadores e põe as famílias em contacto com profissionais.
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Grupos de discussão para familiares prestadores de cuidados: estes grupos permitem que os familiares troquem experiências, encontrem apoio moral e partilhem dicas sobre a melhor forma de apoiar o seu progenitor ou parceiro afásico.
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Serviços hospitalares especializados: muitos centros de reabilitação têm programas específicos para pessoas com afasia, com equipas multidisciplinares e oficinas adaptadas.
Existem também recursos em linha:
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sítios com informações práticas sobre a comunicação com pessoas com afasia
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vídeos explicativos para aprenderes a utilizar ferramentas como as tabelas de pictogramas
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fóruns onde as famílias podem colocar questões e falar com outros prestadores de cuidados
Algumas associações organizam mesmo eventos culturais ou desportivos abertos às pessoas com afasia, com actividades adaptadas para encorajar a participação e quebrar o isolamento.
Por último, os centros locais de ação social (CCAS) e os centros departamentais para deficientes (MDPH) podem fornecer informações sobre ajudas financeiras, apoio domiciliário e programas de colocação profissional para pessoas cuja afasia limita a sua atividade profissional.
Em suma, existe uma verdadeira rede de apoio às pessoas com afasia e às suas famílias. Saber a quem recorrer significa que podes encontrar apoio mais rapidamente, partilhar as tuas experiências e evitar que sejas deixado sozinho a lidar com as dificuldades do dia a dia.