Se dedicarmos algum tempo a aprender sobre a dislexia, podemos desenvolver uma abordagem mais empática e eficaz para ajudar os nossos alunos a ultrapassar os seus desafios. Também é importante notar que a dislexia não reflecte a inteligência de um indivíduo. Muitos alunos disléxicos têm competências excepcionais noutras áreas, como a criatividade e o pensamento crítico.
Como professores, temos de reconhecer e valorizar esses pontos fortes, ao mesmo tempo que trabalhamos nas áreas em que eles têm dificuldades. Ao cultivar um ambiente de aprendizagem inclusivo, podemos encorajar os nossos alunos a prosperar apesar das suas dificuldades.
Identificar as necessidades específicas dos alunos disléxicos
Para ajudar eficazmente um aluno disléxico, o primeiro passo é compreender exatamente onde residem as suas dificuldades. A dislexia não se manifesta da mesma forma em todos os alunos: alguns têm dificuldade em reconhecer os sons, outros em ler fluentemente e outros ainda em compreender o que lêem. É por isso que uma abordagem personalizada é essencial.
Observar atentamente a aula
Os professores são muitas vezes os primeiros a aperceberem-se dos sinais de dislexia. Os sinais a que deves estar atento incluem
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leitura muito lenta, com hesitações frequentes ;
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Inversão ou confusão de letras (por exemplo, “b” e “d”);
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dificuldade em dividir as palavras em sílabas ou em reconhecer rimas ;
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compreensão limitada do texto, apesar de um esforço de leitura considerável;
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Ortografia particularmente fraca, com erros recorrentes.
Manter um diário de observação pode ser muito útil: anota os momentos em que o aluno bloqueia, as tarefas em que se sai melhor ou as condições que parecem ajudá-lo (menos ruído, mais tempo, ajudas visuais).
Conversa com os alunos
É importante falar diretamente com o aluno para compreender os seus sentimentos:
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Quais são as tarefas que consideram mais difíceis?
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Quando é que te sentes confortável ou desanimado?
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Quais são os meios de comunicação que consideram mais úteis?
Estes intercâmbios mostram ao aluno que nos interessamos por ele, que o vemos como um parceiro ativo no seu próprio sucesso. Também ajuda a aumentar a sua confiança: muitos alunos disléxicos sentem-se incompreendidos ou pensam que “não são inteligentes”, quando na realidade as suas dificuldades nada têm a ver com o seu potencial intelectual.
Trabalhar com os pais
Os pais podem dar-te uma ideia valiosa. Em casa, vêem a criança a fazer os trabalhos de casa, a ler em voz alta ou a tentar escrever. Podem partilhar :
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Quando a criança evita certas tarefas por medo de falhar;
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as estratégias que utiliza espontaneamente (desenhos, memorização visual, repetição em voz alta);
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os seus interesses, que podem ser utilizados para motivar a aprendizagem (por exemplo, livros áudio sobre os seus temas favoritos).
Trabalha com especialistas
Os terapeutas da fala, os psicólogos educacionais ou os neuropsicólogos podem efetuar avaliações formais para esclarecer o diagnóstico. Estes testes ajudam a identificar quais as competências que precisam de ser reforçadas e quais as que já são sólidas. Por exemplo:
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avalia a consciência fonológica (capacidade de ouvir e manipular sons) ;
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mede a memória de trabalho, que desempenha um papel importante na leitura ;
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Verifica a compreensão oral, que é frequentemente muito melhor do que a compreensão escrita.
Os resultados destas avaliações são essenciais para adaptar os métodos de ensino e definir objectivos realistas.
Construir um plano de intervenção personalizado
Uma vez recolhida toda esta informação, é possível criar um plano de intervenção individualizado que especifique :
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as disposições pedagógicas necessárias (tempo suplementar, apoio áudio, tutoria);
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objectivos prioritários (melhorar a fluência, trabalhar a ortografia, reforçar a compreensão) ;
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ferramentas para utilizar na aula (software de leitura, mapas mentais, textos simplificados).
Este plano permite que todos os intervenientes – professores, pais, especialistas – trabalhem na mesma direção, acompanhando passo a passo o progresso do aluno.
Não esqueças os pontos fortes do aluno
Identificar as necessidades especiais não é apenas detetar as dificuldades. Trata-se também de reconhecer os pontos fortes: criatividade, pensamento visual, imaginação, talento artístico, etc. Estes pontos fortes podem ser integrados nas actividades escolares para aumentar a autoestima do aluno e mantê-lo motivado.
Adaptar o conteúdo da avaliação
Uma vez identificadas as necessidades específicas dos alunos disléxicos, torna-se essencial tornar as avaliações acessíveis, justas e representativas das suas competências reais. O objetivo não é dar-lhes uma vantagem, mas permitir-lhes demonstrar os seus conhecimentos sem que as suas dificuldades de leitura e de escrita se tornem um obstáculo injusto.
Simplifica a redação das instruções
Os alunos disléxicos podem perder muito tempo a decifrar instruções longas ou complexas. Para os ajudares:
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Utiliza uma linguagem clara e direta e frases curtas.
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Evita formulações ambíguas ou duplas negativas.
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Divide as instruções em passos numerados para facilitar a compreensão da tarefa.
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Sublinha ou coloca em negrito palavras-chave como “envolve”, “explica”, “compara”.
Exemplo:
Em vez de escreveres: “Depois de leres o texto abaixo, escreve um resumo em duas partes: a primeira sobre as causas históricas, a segunda sobre as consequências políticas, respeitando a cronologia.“
Podias dizer: “Lê o texto. 1. Faz um resumo das causas históricas. 2. Resume as consequências políticas. Coloca os acontecimentos pela ordem correta.
Diversificar os formatos de avaliação
Nem todos os alunos aprendem da mesma maneira. Oferecer várias formas de demonstrar compreensão permite que os alunos disléxicos realcem os seus pontos fortes:
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Respostas orais: apresentação oral, gravação áudio, diálogo com o professor.
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Projectos visuais: diagramas, mapas mentais, cartazes, apresentações digitais.
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Exercícios de perguntas e respostas ou de preenchimento de lacunas: para testar a compreensão sem a restrição da ortografia.
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Dramatização ou role-playing: particularmente útil para a história, as ciências sociais ou as línguas.
Exemplo:
Para um capítulo de história, em vez de pedires aos alunos que escrevam um ensaio, sugere uma cronologia ilustrada na qual situem os acontecimentos e expliquem brevemente cada etapa.
Separar o conteúdo da forma
É essencial distinguir entre competências relacionadas com a disciplina (matemática, história, ciências, etc.) e competências de leitura e escrita. Por vezes, uma avaliação pode ser tendenciosa porque a redação das perguntas exige um nível de leitura superior ao que é realmente necessário para compreender o conteúdo.
Resolve o problema:
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Lê as perguntas em voz alta, se necessário.
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Disponibiliza uma versão áudio da avaliação para determinados exercícios.
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Aceita respostas orais ou ditadas por um escriba em determinadas situações.
Criar escalas adequadas
Na avaliação de um trabalho escrito, pode ser adequado separar a nota em duas partes:
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Conteúdo e ideias: avalia a compreensão e a lógica.
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Ortografia e sintaxe: avalia-as separadamente ou de forma mais flexível, consoante o contexto.
Isto significa que os alunos não são indevidamente penalizados por erros ortográficos se tiverem compreendido corretamente a matéria.
Dá tempo para a preparação
Alguns alunos disléxicos precisam de mais tempo para organizar as suas ideias antes de escrever. Podemos sugerir-te :
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um mapa mental para planear a resposta antes de a escrever,
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um rascunho visual com palavras-chave em vez de um texto completo desde o início.
Oferecer escolhas aos alunos
Dar aos alunos a oportunidade de escolher o formato da avaliação dá-lhes um sentido de responsabilidade e reduz o stress. Por exemplo, para o mesmo capítulo, podes :
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escreve um breve resumo,
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grava um podcast,
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cria um cartaz ou um mapa concetual.
Demonstra a sua compreensão do assunto de uma forma que realça os seus pontos fortes.
Adaptar o conteúdo das avaliações não significa baixar o nível, mas sim eliminar barreiras desnecessárias que impedem os alunos disléxicos de demonstrarem as suas verdadeiras capacidades. Quanto mais variadas forem as avaliações, mais corretamente reflectirão o que o aluno sabe e é capaz de fazer.
Utiliza ferramentas e meios de comunicação adequados
Para os alunos disléxicos, o acesso à aprendizagem pode ser muito facilitado por ferramentas digitais e visuais adaptadas. Aqui tens uma lista completa que combina software, aplicações e ajudas práticas para responder a diferentes necessidades:
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Software de leitura em voz alta: NaturalReader, Voice Dream Reader ou as opções incorporadas no Word e no Google Docs podem transformar texto em áudio, para que os alunos possam ouvir em vez de ler palavra a palavra.
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Aplicações educativas interactivas:
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COCO PENSE: oferece mais de 30 jogos educativos para trabalhar a memória, a lógica e a compreensão da leitura de uma forma divertida, ideal para manter os alunos disléxicos ocupados.
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COCO MOVES: inclui uma pausa desportiva a cada 15 minutos de tempo de ecrã, para ajudar os alunos a manterem-se concentrados e reduzir a fadiga cognitiva.
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Corretores ortográficos e teclados preditivos: ferramentas como o Grammarly, o Antidote ou as funções de introdução preditiva nos tablets permitem que os alunos se concentrem no conteúdo e não na ortografia.
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Mapas mentais e organizadores gráficos: MindMeister, XMind ou mapas feitos à mão para estruturar ideias, preparar uma apresentação ou resumir um capítulo.
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Auxílios visuais: diagramas, cartazes, pictogramas e linhas de tempo para representar conceitos de uma forma simples e memorável.
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Audiolivros e podcasts educativos: úteis para os alunos que aprendem melhor oralmente ou que se cansam rapidamente da leitura.
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Plataformas colaborativas: Padlet, Canva ou Google Slides para criar projectos interactivos que combinem texto, imagens e som.
A integração destas várias ferramentas, incluindo o COCO PENSA e o COCO SE MEXE, permite oferecer aos alunos disléxicos um ambiente de aprendizagem inclusivo e multissensorial, onde cada um pode progredir ao seu próprio ritmo e desenvolver os seus pontos fortes.
Concede mais tempo para concluir a avaliação
Dar mais tempo aos alunos disléxicos para realizarem as suas avaliações é uma medida essencial para garantir que têm uma oportunidade justa de sucesso. A dislexia pode abrandar o processo de leitura e escrita, o que significa que estes alunos podem precisar de mais tempo para processar a informação e formular as suas respostas. Como educadores, temos de ser flexíveis e compreender estas necessidades.
Ao oferecer tempo extra, permitimos que os nossos alunos se concentrem na qualidade do seu trabalho e não na pressão do tempo. Também pode reduzir a sua ansiedade de avaliação, o que pode ter um impacto positivo no seu desempenho geral. Em última análise, o nosso objetivo é incentivar uma aprendizagem autêntica e significativa, e dar mais tempo é um passo crucial nessa direção.
Fornece instruções claras e concisas
Para ajudar os nossos alunos disléxicos a serem bem sucedidos, é imperativo que forneçamos instruções claras e concisas. Os alunos disléxicos podem ter dificuldade em seguir instruções complexas ou longas, o que pode levar à confusão e à frustração. Se simplificarmos as nossas instruções e as apresentarmos passo a passo, é mais fácil para eles compreenderem e concentrarem-se na tarefa que têm em mãos.
Também pode ser útil utilizar recursos visuais para acompanhar as nossas instruções verbais. Por exemplo, listas de verificação ou diagramas podem ajudar os nossos alunos a visualizar o processo que têm de seguir. Ao combinar a verbalização e a visualização, aumentamos as hipóteses de os nossos alunos compreenderem plenamente o que se espera deles.
Incentiva a comunicação aberta e o esclarecimento de questões
Temos de encorajar uma comunicação aberta entre nós e os nossos alunos disléxicos, para que eles se sintam à vontade para fazer perguntas ou pedir esclarecimentos quando necessário. Criar um ambiente onde os alunos se sintam seguros para expressar as suas preocupações é essencial para o seu sucesso académico. Devemos recordar-lhes regularmente que não há perguntas estúpidas e que pedir ajuda é um sinal de força.
Além disso, é importante que estejamos atentos aos sinais não verbais dos nossos alunos. Por vezes, eles podem não se atrever a fazer uma pergunta diretamente, mas podem mostrar sinais de confusão ou ansiedade. Se estivermos atentos a estes sinais, podemos intervir proactivamente para oferecer ajuda e esclarecer qualquer ambiguidade nas instruções ou no conteúdo.
Mostra paciência e compreensão
Finalmente, a paciência e a compreensão são cruciais quando se trabalha com alunos disléxicos. Estes alunos podem enfrentar desafios que podem parecer frustrantes para eles e para nós. Como educadores, é essencial que nos mantenhamos calmos e encorajadores perante as suas dificuldades.
A nossa atitude positiva pode ter um impacto significativo na sua motivação e auto-confiança. Também temos de reconhecer que o caminho para o sucesso pode ser longo e difícil para os nossos alunos disléxicos. Vale a pena celebrar cada pequeno progresso, pois ajuda a aumentar a confiança nas suas capacidades.
Ao cultivar uma atmosfera carinhosa em que os erros são vistos como oportunidades de aprendizagem e não como fracassos, podemos ajudar os nossos alunos a desenvolver uma resiliência que os ajudará ao longo da sua educação e para além dela.