A esclerose múltipla (EM) é frequentemente percebida, com razão, como uma doença que afeta o corpo: a marcha, o equilíbrio, a força muscular. No entanto, existe uma dimensão menos visível, mais silenciosa, mas igualmente impactante: os distúrbios cognitivos. Você pode já ter sentido o que chamamos de "nevoeiro cognitivo", essa sensação de que seu cérebro está funcionando em câmera lenta, que as ideias estão menos claras. Não é "na sua cabeça" no sentido psicológico da palavra; são sintomas reais, diretamente relacionados à doença.
Reconhecer os sinais precoces desses distúrbios é o primeiro passo, e o mais crucial, para agir e implementar estratégias que ajudarão a preservar sua qualidade de vida. Este artigo foi elaborado para guiá-lo, com palavras simples e exemplos concretos, através deste assunto complexo, mas essencial.
Antes de procurar os sinais, é importante entender por que eles aparecem. A esclerose múltipla é uma doença em que o sistema imunológico ataca a mielina, a camada protetora que envolve as fibras nervosas no cérebro e na medula espinhal. Imagine os nervos do seu cérebro como cabos elétricos complexos. A mielina é o isolante plástico que os envolve. Quando esse isolante é danificado, a corrente elétrica ou seja, a informação passa mais devagar, de forma menos eficiente, ou se perde pelo caminho.
Esse processo de desmielinização desacelera a comunicação entre as diferentes áreas do seu cérebro. Pense em uma conversa telefônica com uma conexão ruim: as palavras são fragmentadas, informações estão faltando, e é necessário um esforço considerável para entender a mensagem global. É um pouco assim que acontece no seu cérebro. As tarefas que pareciam automáticas, como seguir uma discussão ou se lembrar de uma lista de compras, de repente exigem uma energia mental considerável. Não é uma falta de vontade, mas um desafio neurológico muito real.
Quais são as áreas cognitivas mais frequentemente afetadas?
Os distúrbios cognitivos na EM não são uma forma de demência como a doença de Alzheimer. Eles afetam funções muito específicas. Se cada pessoa é única, algumas áreas são mais frequentemente afetadas do que outras. Identificá-las ajudará você a nomear o que está sentindo.
- A velocidade de processamento da informação: É a capacidade do seu cérebro de receber, analisar e responder a uma informação. É frequentemente o primeiro e mais comum dos distúrbios.
- A memória: Principalmente a memória de curto prazo e a memória de trabalho. Não se trata de esquecer quem você é, mas sim do que você deveria comprar no supermercado.
- Atenção e concentração: A capacidade de se concentrar em uma tarefa sem se deixar distrair, especialmente em um ambiente barulhento.
- As funções executivas: É o "maestro" do seu cérebro. Elas englobam o planejamento, a organização, a resolução de problemas e a tomada de decisões.
- As capacidades visuo-espaciais: A habilidade de perceber distâncias, formas e se orientar no espaço.
Isso não é uma fatalidade
É fundamental ressaltar: cerca de 50 a 60% das pessoas com EM experimentarão distúrbios cognitivos em algum momento de sua trajetória, mas sua gravidade varia enormemente. Para muitos, eles permanecem leves a moderados. O mais importante é que soluções existem. Seu cérebro possui uma capacidade extraordinária chamada neuroplasticidade: ele pode criar novas conexões para contornar as áreas danificadas. É aqui que a estimulação cognitiva e as boas estratégias entram em cena.
Identificando os sinais precoces no dia a dia
Os primeiros sinais são frequentemente sutis. Você pode atribuí-los à fadiga, ao estresse ou ao envelhecimento. Mas se essas situações se tornarem recorrentes e exigirem um esforço constante, pode ser hora de prestar atenção. Aqui estão exemplos concretos para ajudá-lo a identificá-los.
A velocidade de processamento da informação: a sensação de estar devagar
É como se seu cérebro, que antes era um carro de corrida, agora estivesse em segunda marcha. Você ainda chega ao destino, mas isso leva mais tempo e energia.
- Exemplo concreto: Durante uma reunião de família animada, você tem dificuldade em acompanhar o fio das diferentes conversas. No tempo de entender uma piada, todo mundo já passou para outro assunto. Você se sente deslocado, um passo atrás dos outros.
- Exemplo concreto: Alguém lhe faz uma pergunta simples. Você conhece a resposta, mas ela leva alguns segundos a mais para "subir" à superfície. Esse tempo de latência pode ser frustrante para você e, às vezes, confuso para seu interlocutor.
Os distúrbios de memória: mais do que um simples esquecimento
Esquecer as chaves acontece com todo mundo. Na EM, o problema é diferente. Trata-se menos de um esquecimento total do que de uma dificuldade em "recuperar" a informação armazenada em seu cérebro.
- Exemplo concreto: Você está contando uma anedota empolgante e, de repente, o fio do seu pensamento se corta. Você sabe aonde queria chegar, mas a palavra ou a ideia seguinte evaporou. É o famoso fenômeno do "palavra na ponta da língua", mas que ocorre com muito mais frequência.
- Exemplo concreto: Você vai à cozinha para procurar algo específico. Uma vez lá, é impossível lembrar do que se tratava. Você precisa voltar para o cômodo anterior para recuperar a ideia inicial.
Dificuldades de atenção e concentração: o "cérebro borboleta"
Sua atenção é como uma borboleta que tem dificuldade em pousar duradouramente em uma única flor. Ela é facilmente desviada pelo menor estímulo externo.
- Exemplo concreto: Você tenta ler um livro ou um artigo. Depois de algumas linhas, sua mente se desvia. Você relê o mesmo parágrafo três vezes sem entender o sentido, pois o barulho do tráfego ou um pensamento intrusivo capturou toda a sua atenção.
- Exemplo concreto: Realizar duas coisas ao mesmo tempo (multitarefa) se torna um verdadeiro quebra-cabeça. Cozinhar enquanto ouve as notícias no rádio pode levar a erros, como esquecer um ingrediente ou salgar o prato duas vezes.
As funções executivas: quando planejar se torna um desafio
Organizar um simples dia pode assemelhar-se à ascensão de uma montanha. As tarefas que exigem várias etapas tornam-se complexas e fontes de ansiedade.
- Exemplo concreto: Preparar uma refeição do início ao fim. Você precisa gerenciar a lista de compras, a preparação dos ingredientes, o cozimento simultâneo de vários elementos... Essa sequência lógica, que antes era automática, pode parecer insuperável. Você pode se sentir sobrecarregado e acabar optando por uma solução mais fácil.
- Exemplo concreto: Gerenciar seu orçamento mensal. Classificar as contas, planejar os pagamentos, antecipar as despesas... tudo isso exige uma organização mental que pode ter se tornado exaustiva.
O impacto na vida pessoal e profissional
Essas dificuldades, embora invisíveis para os outros, têm repercussões muito reais em seu dia a dia. Elas podem gerar frustração, perda de confiança em si mesmo e um sentimento de isolamento.
No trabalho: o medo de não estar à altura
O mundo profissional, muitas vezes rápido e exigente, pode se tornar um campo minado. O medo de cometer um erro, de não cumprir um prazo ou de parecer menos competente pode ser muito pesado. Você pode desenvolver estratégias de compensação (anotar tudo, trabalhar mais horas), mas isso aumenta sua fadiga cognitiva.
Na vida social: o reclusão
As saídas em grupo, os jantares barulhentos, as conversas rápidas podem se tornar uma fonte de estresse em vez de prazer. O esforço constante para acompanhar, para não perder o fio, é exaustivo. Às vezes, é mais simples recusar convites, o que pode, infelizmente, levar a um isolamento progressivo.
A gestão da fadiga cognitiva
É essencial diferenciar a fadiga física da fadiga cognitiva. Esta última não é uma simples sonolência. É a sensação de que seu cérebro está "saturado", "esvaziado". Após uma tarefa intelectualmente exigente (mesmo que antes parecesse simples), você pode se sentir completamente drenado, incapaz de pensar claramente. Aprender a reconhecer essa fadiga e respeitá-la é uma habilidade chave.
O que fazer? As estratégias e ferramentas à sua disposição
A boa notícia é que você não está impotente diante desses distúrbios. Reconhecer os sinais é o primeiro passo. O segundo é agir de forma proativa.
Falar com sua equipe médica
Seu neurologista é seu primeiro interlocutor. Não hesite em descrever precisamente o que você está vivendo, usando exemplos concretos do seu dia a dia. Ele poderá avaliar a situação, descartar outras causas (como os efeitos colaterais de um medicamento, um distúrbio do sono ou uma depressão) e orientá-lo. Uma avaliação neuropsicológica pode ser proposta para traçar um mapa preciso de suas forças e fraquezas cognitivas.
A fonoaudiologia: um grande aliado
O fonoaudiólogo não é apenas o especialista da linguagem. É um profissional da reabilitação cognitiva. Ele ou ela pode ajudá-lo a desenvolver estratégias de compensação sob medida. Por exemplo, aprender a usar um calendário de forma mais eficaz, decompor uma tarefa complexa em várias pequenas etapas simples, ou treinar sua memória de trabalho. É um verdadeiro treinador para o seu cérebro.
A estimulação cognitiva no dia a dia: treinar seu cérebro
Assim como um músculo, o cérebro precisa ser exercitado para manter suas capacidades e desenvolver novas conexões. Esse é o princípio da "musculação cerebral". Não se trata de fazer exercícios complexos por horas, mas de integrar atividades estimulantes em sua rotina de forma regular e divertida.
É precisamente para atender a essa necessidade que desenvolvemos nossos aplicativos. Eles foram projetados para serem ferramentas eficazes e agradáveis, que você pode usar sozinho ou em conjunto com seu fonoaudiólogo.
- Nossos programas de treinamento cerebral Edith & Joe: Criamos dois universos distintos, Edith para mulheres e Joe para homens, com conteúdos culturais e jogos adaptados para que o treinamento seja relevante e motivador para você. Esses programas não são jogos como os outros. Eles foram co-construídos com profissionais de saúde para direcionar especificamente as funções cognitivas que podem ser afetadas pela EM.
- Um acompanhamento por profissionais: Um dos grandes trunfos de nossos programas é que eles podem ser usados em colaboração com seu fonoaudiólogo ou terapeuta ocupacional. O profissional pode acessar seus resultados, ver seu progresso, identificar as áreas que necessitam de mais trabalho e, assim, personalizar seu programa de reabilitação, mesmo à distância. É uma ponte preciosa entre suas sessões no consultório e seu treinamento em casa.
- Uma estimulação lúdica e variada: Os programas oferecem uma grande variedade de jogos (questionários culturais, jogos de lógica, memória, atenção, linguagem...) para estimular todas as facetas de sua cognição. O formato lúdico é essencial para manter sua motivação a longo prazo. O objetivo é que esse treinamento se torne um momento de prazer, um encontro agradável consigo mesmo.
- Um nível de dificuldade que se adapta a você: O algoritmo de nossos aplicativos ajusta automaticamente a dificuldade dos exercícios com base em seu desempenho. Assim, você nunca está em uma situação de fracasso desencorajador, nem em uma rotina muito fácil. Você sempre trabalha em sua "zona de progresso", onde a estimulação é mais eficaz.
Adotar um estilo de vida favorável à saúde cognitiva
As ferramentas de estimulação são poderosas, mas são ainda mais eficazes quando se integram a um estilo de vida globalmente saudável. Pense nisso como um ecossistema onde cada elemento apoia os outros.
A importância da atividade física
A atividade física, mesmo suave e adaptada às suas capacidades (caminhada, yoga, natação...), é uma das melhores maneiras de proteger seu cérebro. Ela melhora o fluxo sanguíneo cerebral, o que traz mais oxigênio e nutrientes para seus neurônios. Também favorece a produção de substâncias que protegem as células nervosas e incentivam a neuroplasticidade.
Gerenciar o estresse e o sono
O estresse crônico e a falta de sono são inimigos temíveis para suas funções cognitivas. Eles exacerbam o "nevoeiro" e a fadiga. Técnicas de relaxamento como a meditação mindfulness, a sofrologia ou a coerência cardíaca podem ajudá-lo a gerenciar melhor o estresse. Da mesma forma, garantir uma boa higiene do sono (horários regulares, ambiente calmo e escuro) é fundamental.
O vínculo social: o melhor dos estimulantes
Não subestime nunca o poder das interações sociais. Discutir, trocar ideias, compartilhar atividades com seus entes queridos é uma forma de estimulação cognitiva muito completa e natural. Isso envolve sua memória, sua atenção, sua linguagem e suas capacidades de raciocínio, tudo em um contexto agradável. Se os grandes grupos se tornaram difíceis, priorize encontros em pequenos comitês, em locais calmos.
Em conclusão, se você se reconhece em alguns dos sinais descritos, não fique sozinho com suas dúvidas e preocupações. Os distúrbios cognitivos na esclerose múltipla são um desafio, mas um desafio que você pode enfrentar. O primeiro passo é a aceitação e a comunicação. Fale sobre isso com seu círculo, com seu médico, com seu neurologista. Explore as possibilidades da reabilitação fonoaudiológica e descubra como ferramentas como nossos programas Edith e Joe podem se tornar seus aliados no dia a dia. Combinando essas abordagens com um estilo de vida saudável, você coloca todas as chances do seu lado para preservar sua clareza mental, sua autonomia e sua alegria de viver. Seu cérebro é resiliente; dê a ele os meios para provar isso.
Nosso guia para acompanhar as pessoas com Esclerose Múltipla pode ser encontrado no seguinte endereço: https://www.dynseo.com/pt-pt/la-reeducation-cognitive-lorsque-lon-est-atteint-dune-sclerose-en-plaques/.