Praxies e apraxies : exercícios práticos de reeducação | DYNSEO

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Praxias e apraxias: compreender e reabilitar os gestos voluntários

Guia completo sobre os distúrbios da planificação e da execução de movimentos complexos

Amarrar os cadarços, escovar os dentes, usar talheres, desenhar uma estrela... Esses gestos do cotidiano nos parecem naturais e automáticos, no entanto, eles exigem uma função cognitiva complexa chamada "praxia". Quando essa função é alterada, fala-se em apraxia, um distúrbio neurológico que pode impactar consideravelmente a autonomia. Compreender as praxias e seu mau funcionamento é essencial para acompanhar efetivamente as pessoas afetadas.

O que é uma praxia?

A praxia designa a capacidade de planejar, organizar e executar gestos voluntários coordenados com um objetivo específico. Não se trata de simples movimentos reflexos, como retirar a mão de uma superfície quente, mas de ações intencionais que exigem uma sequência motora planejada e aprendida.

Quando realizamos um gesto praxico, nosso cérebro ativa um "programa motor" armazenado na memória que indica em que ordem mobilizar os músculos, com que força, que amplitude e que orientação espacial. Essa programação motora se localiza principalmente no córtex parietal esquerdo, em estreita relação com as áreas motoras frontais.

80%
dos AVCs do hemisfério esquerdo causam uma apraxia
30%
dos pacientes com Alzheimer desenvolvem uma apraxia
6%
das crianças sofrem de dispraxia desenvolvimental

Os diferentes tipos de praxias

Os neuropsicólogos distinguem várias categorias de praxias de acordo com a natureza e a complexidade do gesto realizado. Cada uma envolve redes cerebrais específicas.

👋 Praxias ideomotoras

Definição: Capacidade de realizar gestos simbólicos convencionais sob comando verbal, sem objeto real.

Exemplos: Fazer um sinal com a mão para dizer adeus, fazer a saudação militar, imitar o gesto de beber em um copo invisível, fazer o sinal da cruz.

Em caso de distúrbio: A pessoa sabe o que se pede, mas não consegue produzir o gesto correto. Ela pode fazer um gesto aproximado ou totalmente inadequado.

🔧 Praxias ideatórias

Definição: Capacidade de usar corretamente objetos reais em uma sequência de ações organizadas para alcançar um objetivo.

Exemplos: Preparar uma xícara de café (pegar a xícara, despejar água, adicionar o café, misturar), escovar os dentes, dobrar uma carta e colocá-la em um envelope.

Em caso de distúrbio: A pessoa usa mal os objetos (escova os dentes com o cabo da escova), inverte a ordem das etapas ou desiste no meio do caminho sem saber por quê.

👗 Praxias de vestir

Definição: Capacidade de se vestir de maneira coerente, respeitando a ordem e a orientação das roupas.

Exemplos: Vestir um pulôver, abotoar uma camisa, colocar os sapatos no pé correto, fechar um zíper.

Em caso de distúrbio: A pessoa coloca várias camadas uma sobre a outra, veste a calça do avesso, não sabe mais em que ordem se vestir (roupa íntima por cima da calça).

🏗️ Praxias construtivas

Definição: Capacidade de montar elementos para criar uma estrutura em duas ou três dimensões.

Exemplos: Construir uma torre de blocos, copiar uma figura geométrica complexa, montar um quebra-cabeça, fazer origami.

Em caso de distúrbio: Os desenhos são simplificados ou desestruturados, os ângulos são arredondados, as proporções incorretas, a organização espacial caótica.

🗣️ Praxias buco-faciais

Definição: Capacidade de realizar movimentos voluntários com os músculos do rosto, da boca e da língua.

Exemplos: Esticar a língua, inflar as bochechas, dar um beijo, assobiar, soprar uma vela.

Em caso de distúrbio: A pessoa não consegue reproduzir esses movimentos sob demanda, embora possa fazê-los espontaneamente (por exemplo, esticar a língua para lamber os lábios).

🧠 Base neurológica das praxias

As praxias dependem de uma rede cerebral complexa que envolve principalmente o lobo parietal esquerdo (zona de armazenamento dos programas motores), o córtex pré-motor frontal (planejamento do movimento) e os gânglios da base (controle da execução). Conexões estreitas com as áreas visuais e somatossensoriais permitem ajustar os gestos com base em retornos sensoriais.

A apraxia: quando os gestos se tornam impossíveis

A apraxia é um distúrbio neurológico adquirido caracterizado pela incapacidade de executar movimentos voluntários coordenados, enquanto as capacidades motoras básicas, a força muscular e a compreensão das instruções são preservadas. O paciente sabe o que deve fazer e quer fazê-lo, mas seu gesto não corresponde à sua intenção.

Causas da apraxia

As apraxias ocorrem devido a uma lesão nas áreas cerebrais envolvidas na programação e no controle motor. As principais causas são os acidentes vasculares cerebrais (AVCs) que afetam o hemisfério esquerdo, traumatismos cranianos severos, tumores cerebrais e doenças neurodegenerativas (doença de Alzheimer, demência frontotemporal, degeneração corticobasal).

Na doença de Alzheimer, a apraxia geralmente aparece no estágio moderado da doença e piora progressivamente. Ela contribui fortemente para a perda de autonomia: o paciente não sabe mais usar os talheres, se lavar, se vestir e se torna dependente para as atividades da vida diária.

Como reconhecer uma apraxia?

⚠️ Sinais evocativos de apraxia

  • Dificuldade em reproduzir sob comando gestos simbólicos (saudação militar, sinal da cruz)
  • Uso inadequado de objetos comuns (escova de dentes usada como pente)
  • Gestos desajeitados, imprecisos, com hesitações ou correções múltiplas
  • Inversões na ordem das sequências motoras (acender um cigarro antes de retirá-lo do pacote)
  • Dificuldade em se vestir apesar da ausência de déficit motor ou visual
  • Incapacidade de desenhar ou copiar figuras geométricas simples
  • Dificuldades nos gestos buco-faciais (esticar a língua, inflar as bochechas) apesar de uma fala fluente
  • Preservação dos gestos automáticos (a pessoa pode espontaneamente cumprimentar alguém, mas não consegue imitar o gesto)

🩺 Diagnóstico da apraxia

O diagnóstico de apraxia é feito por um neurologista ou neuropsicólogo com a ajuda de testes padronizados. Pede-se ao paciente que imite gestos, mime o uso de objetos, manipule objetos reais, desenhe e copie figuras. A avaliação permite determinar o tipo de apraxia e sua gravidade, informações essenciais para orientar a reabilitação.

A dispraxia desenvolvimental na criança

A dispraxia desenvolvimental (ou Transtorno da Aquisição da Coordenação segundo o DSM-5) deve ser diferenciada da apraxia adquirida, sendo um distúrbio neurodesenvolvimental que afeta a planificação e a automatização dos gestos. A criança dispraxica sempre teve dificuldades motoras, ao contrário do paciente apraxico que perde uma função que dominava anteriormente.

As crianças dispraxicas são frequentemente qualificadas como "desajeitadas": elas derrubam seu copo, têm dificuldade em andar de bicicleta, amarrar os sapatos, cortar com tesoura. Na escola, a escrita é trabalhosa, lenta, ilegível, o que penaliza a aprendizagem, apesar de uma inteligência normal ou até superior.

"Meu filho Léo, 9 anos, é dispraxico. Durante muito tempo, pensou-se que ele não fazia esforço. Na verdade, cada gesto exige uma concentração intensa: amarrar os cadarços, cortar a carne, escrever de forma legível. Desde o diagnóstico, ele tem se beneficiado de adaptações (computador em sala de aula, sem dupla tarefa de ouvir/escrever, tempo extra nas avaliações) e acompanhamento em terapia ocupacional. Ele finalmente ganhou confiança em si mesmo."

— Sandrine, mãe de uma criança dispraxica

✍️

Dispraxia visuoespacial

Dificuldade em organizar o olhar e os gestos no espaço: problemas em geometria, em quebra-cabeças, na escrita

👄

Dispraxia buco-facial

Dificuldades de articulação, mastigação difícil, baba frequente, dificuldades de deglutição

👗

Dispraxia de vestir

Dificuldades em se vestir sozinho, abotoar, amarrar, distinguir o lado certo e o avesso das roupas

Dispraxia gestual

Desajeitamento nos gestos do cotidiano: usar talheres, pentear-se, andar de bicicleta, pegar uma bola

Reabilitação e estratégias compensatórias

A reabilitação dos distúrbios praxicos mobiliza principalmente o terapeuta ocupacional e o psicomotricista. A abordagem combina a repetição intensiva de gestos específicos, o desenvolvimento de estratégias compensatórias e as adaptações ambientais.

Princípios gerais da reabilitação

🎯 Decomposição do gesto

Princípio: Cortar um gesto complexo em etapas simples e treiná-las uma a uma antes de encadeá-las.

Exemplo: Para escovar os dentes: 1) Pegar a escova de dentes, 2) Abrir a pasta de dentes, 3) Colocar a pasta na escova, 4) Levar a escova à boca, 5) Escovar em movimentos circulares.

🔄 Repetição e automatização

Princípio: A prática intensiva e repetida permite criar novos circuitos neuronais e automatizar progressivamente o gesto.

Exemplo: Treinar diariamente para amarrar os sapatos, primeiro devagar verbalizando cada etapa, depois cada vez mais rápido até a automatização.

👁️ Uso de referências visuais

Princípio: Indícios visuais (cores, setas, pictogramas) orientam a execução do gesto.

Exemplo: Colar adesivos coloridos nas roupas para indicar o lado certo/avesso, usar um ponto vermelho no sapato esquerdo e um azul no direito.

🗣️ Verbalização das etapas

Princípio: Dizer em voz alta o que se está fazendo permite planejar e controlar melhor o gesto.

Exemplo: "Eu pego o faca na mão direita, o garfo na esquerda, espeto a carne com o garfo, corto com a faca..."

Exercícios práticos de reabilitação

💪 Exercícios para as praxias ideomotoras

  • Imitar gestos diante de um espelho (saudação militar, gesto de adeus, polegar para cima)
  • Imitar ações sem objeto (fingir beber, telefonar, pentear-se)
  • Reproduzir sequências gestuais (bater palmas 2 vezes e depois estalar os dedos)
  • Brincar de "Jacques disse" variando os gestos simbólicos

🍴 Exercícios para as praxias ideatórias

  • Treinar o uso de objetos do cotidiano (faca, garfo, escova de dentes, pente)
  • Realizar tarefas sequenciais simples: preparar um sanduíche, dobrar roupas, pôr a mesa
  • Seguir receitas de cozinha ilustradas passo a passo
  • Participar de tarefas domésticas adaptadas: secar a louça, regar as plantas

🎨 Exercícios para as praxias construtivas

  • Montar quebra-cabeças de complexidade crescente
  • Reproduzir construções em Lego ou blocos de acordo com um modelo
  • Copiar figuras geométricas (quadrado, triângulo, casa, cubo em 3D)
  • Desenhar seguindo pontos numerados (ligar os pontos)
  • Fazer origamis simples com instruções visuais
  • Brincar com Kapla, jogos de construção

👄 Exercícios para as praxias buco-faciais

  • Esticar a língua para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita
  • Inflar as bochechas e depois desinflar
  • Fazer bolhas com a boca fechada
  • Soprar para apagar uma vela (a distâncias variadas)
  • Fazer caretas diante de um espelho (sorriso exagerado, cara de desdém, olhos arregalados)
  • Mastigar alimentos de texturas diferentes (mole, crocante, duro)

Adaptações para facilitar a autonomia

Além da reabilitação, adaptações práticas permitem contornar as dificuldades praxicas e preservar a autonomia pelo maior tempo possível.

🏠 Adaptações do domicílio e do material

  • Roupas adaptadas: Preferir roupas com velcro ou elásticos em vez de botões, sapatos com fecho de velcro em vez de cadarços
  • Talheres ergonômicos: Cabos grossos antiderrapantes, pratos com bordas, copos com corte nasal
  • Sequenciadores visuais: Exibir etapas ilustradas para as rotinas (lavar-se, vestir-se, preparar uma refeição)
  • Organização espacial: Sempre guardar os objetos no mesmo lugar, etiquetar as gavetas e armários
  • Simplificação das tarefas: Preparar as roupas na ordem em que devem ser vestidas, reduzir o número de etapas

Apraxia e vida cotidiana

Viver com uma apraxia representa um desafio diário que requer paciência, adaptação e apoio do entorno. Os cuidadores desempenham um papel crucial ao encorajar a pessoa a manter sua autonomia, ao mesmo tempo em que oferecem uma ajuda direcionada quando necessário.

"A apraxia é uma deficiência invisível. De fora, o paciente parece fisicamente capaz, o que torna suas dificuldades difíceis de entender para o entorno. É essencial explicar que não se trata de má vontade ou preguiça, mas de um distúrbio neurológico real que requer tempo e repetição."

— Dr. Marie Poncet, neurologista especializada em neurorreabilitação

Dicas para os cuidadores

💙 Como ajudar sem fazer no lugar

  • Dar o tempo necessário: não terminar o gesto no lugar da pessoa por impaciência
  • Decompor verbalmente: "Primeiro você pega a escova, depois coloca a pasta de dentes..."
  • Mostrar em vez de explicar: demonstrar o gesto lentamente para que possa ser imitado
  • Valorizar os sucessos: encorajar cada pequeno progresso para manter a motivação
  • Adaptar as exigências: aceitar que o gesto seja menos preciso, mas suficientemente funcional
  • Manter as atividades: continuar a propor atividades manuais agradáveis (jardinagem, cozinha simples, bricolagem adaptada)

Viver com os distúrbios praxicos

Os distúrbios praxicos, seja apraxia adquirida ou dispraxia desenvolvimental, impactam profundamente a autonomia e a autoestima. Essas dificuldades são ainda mais frustrantes porque dizem respeito a gestos aparentemente simples que todos dominam naturalmente.

No entanto, com uma reabilitação intensiva, estratégias compensatórias adequadas e um ambiente acolhedor, as pessoas afetadas por distúrbios praxicos podem recuperar uma qualidade de vida satisfatória. A plasticidade cerebral permite ao cérebro criar novas vias neuronais para contornar as áreas lesionadas, desde que esses aprendizados sejam estimulados de forma regular e direcionada.

Para as crianças dispraxicas, um diagnóstico precoce e adaptações escolares apropriadas permitem que tenham sucesso na escolaridade, apesar de suas dificuldades motoras. Elas frequentemente desenvolvem forças notáveis em outras áreas (linguagem, memória, raciocínio) que devem ser valorizadas.

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