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Illeísmo: Por que Falar de Si Mesmo na 3ª Pessoa e o que Isso Revela?

Fenômeno retórico antigo, estratégia cognitiva moderna ou sinal de um distúrbio da consciência de si — tudo o que a psicologia e as neurociências sabem sobre o illeísmo.

"Elise precisa de café para começar o dia." "Marc é alguém que não suporta a injustiça." Se você já ouviu alguém falar de si mesmo na terceira pessoa — ou se você faz isso — você encontrou o illeísmo. Este fenômeno linguístico, ao mesmo tempo comum e intrigante, fascina psicólogos, linguistas e neurocientistas. É um simples traço de personalidade? Uma estratégia de regulação emocional? Um sinal de narcisismo? Ou, em certos contextos clínicos, um indício de distúrbios da consciência de si? Este guia completo faz um panorama sobre o que sabemos do illeísmo.
-400 a.C.
: Júlio César usa sistematicamente o illeísmo em seus Commentarii de Bello Gallico — um dos exemplos mais famosos da história
↓ 22 %
de redução do estresse emocional durante uma tomada de decisão difícil quando se refere a si na 3ª pessoa (estudos de 2017)
3–5 anos
a idade em que as crianças abandonam gradualmente o illeísmo — é normal antes dessa idade

Definição e etimologia do illeísmo

A palavra illeísmo vem do latim ille, que significa "ele" ou "aquele" (pronome demonstrativo de terceira pessoa masculino). O illeísmo designa o fato de referir-se a si mesmo usando a terceira pessoa do singular — ou seu próprio nome — em vez do pronome "eu". "Ele precisa descansar" diz alguém para falar de si mesmo. "Maria está cansada" diz Maria ao falar de si mesma.

Esse fenômeno é universal na primeira infância (as crianças de 2-3 anos falam naturalmente de si na terceira pessoa antes de adquirir o domínio do "eu") e comum em certos contextos culturais ou retóricos (discurso político, relato autobiográfico distanciado, certos idiomas). Ele se torna mais notável — e psicologicamente interessante — quando persiste no adulto nas conversas cotidianas.

O illeísmo no desenvolvimento da criança: uma passagem normal

Antes de entender o illeísmo adulto, é útil compreender que o illeísmo é a norma na infância. Entre 18 meses e 3 anos, as crianças falam muito frequentemente de si na terceira pessoa — "Léo quer suco", "Lucie está com dor" — antes de adquirir gradualmente o uso do pronome pessoal "eu" e a consciência de si como sujeito distinto.

Essa passagem da terceira para a primeira pessoa é um marco importante do desenvolvimento cognitivo e da consciência de si. Ela coincide com a emergência do que os psicólogos chamam de "teoria da mente" — a capacidade de se representar a si mesmo e aos outros como agentes mentais distintos com pensamentos, crenças e intenções próprias. A criança que diz "eu" afirma sua existência como sujeito — uma etapa maior no desenvolvimento do eu.

Quando o illeísmo se torna incomum na criança?

Se o illeísmo ainda é frequente entre 2 e 4 anos, sua persistência além dos 5-6 anos merece atenção. Ela pode sinalizar dificuldades no desenvolvimento da consciência de si e da teoria da mente — o que pode ser observado em certos distúrbios do desenvolvimento, incluindo os distúrbios do espectro autista. Nesse contexto, o illeísmo não é um fenômeno isolado, mas se insere em um perfil de desenvolvimento mais amplo.

O illeísmo no adulto: formas e contextos

No adulto, o illeísmo pode assumir várias formas e responder a motivações muito diferentes. É importante distinguir essas formas para não confundi-las.

O illeísmo retórico e estilístico

A forma mais antiga e codificada de illeísmo é retórica. Júlio César escreve na terceira pessoa em seus Commentarii para se apresentar como um general objetivo relatando os fatos — não um narrador subjetivo contando suas vitórias. Muitos líderes políticos, atletas de alto nível e figuras públicas adotaram esse estilo para projetar uma imagem de grandeza, objetividade ou desapego. "O presidente considera que..." diz às vezes o próprio presidente — uma forma de se desincorporar de sua própria declaração e conferir-lhe uma autoridade institucional.

"César viu que seus soldados se curvavam. Ele lhes disse: 'Não vencemos sempre?' E os levou à batalha." (César falando de si mesmo na terceira pessoa em seus Comentários sobre a Guerra das Gálias)

— Júlio César, De Bello Gallico, I século a.C.

O illeísmo afetivo e informal

Algumas pessoas falam de si na terceira pessoa de forma afetiva e informal — muitas vezes em um contexto de brincadeira, autodepreciação, humor ou ternura. "Mathieu quer um abraço" diz Mathieu ao seu parceiro. Esse estilo é comum em casais, com crianças, ou em grupos de amigos próximos onde pode servir para suavizar um pedido, distanciar ligeiramente o ego, ou simplesmente como um traço de personalidade encantador.

O illeísmo como estratégia de regulação emocional

É a forma mais estudada cientificamente nos últimos anos. Pesquisas publicadas em revistas de psicologia mostraram que falar consigo mesmo na terceira pessoa — ou se referir a si pelo nome em seu diálogo interno — pode reduzir a reatividade emocional diante de situações estressantes e melhorar a qualidade das decisões tomadas sob pressão.

🔬 O que a pesquisa diz sobre o iléismo e a regulação emocional

Estudos realizados por Ethan Kross e seus colegas (Universidade de Michigan) mostraram que falar consigo mesmo na terceira pessoa — "O que Sophie deveria fazer nesta situação?" em vez de "O que eu deveria fazer?" — cria uma distância psicológica que reduz a ativação emocional do córtex pré-frontal medial (envolvido nas ruminações e na autorreflexão negativa) e melhora a qualidade do raciocínio em situações com alto conteúdo emocional. É como se você estivesse dando um conselho a um amigo em vez de a si mesmo.

A psicologia do iléismo: o que revela sobre a autoconsciência

O iléismo é um fenômeno linguístico — mas também é uma janela para processos psicológicos e cognitivos profundos. A forma como nos referimos a nós mesmos na linguagem não é irrelevante: reflete e influencia a maneira como nos percebemos como sujeitos.

Distância psicológica e "fala distanciada consigo mesmo"

O conceito central para entender os benefícios potenciais do iléismo é o de "distância psicológica". Quando dizemos "eu", estamos totalmente imersos em nosso próprio ponto de vista, nossas emoções, nossas reações imediatas. Quando dizemos "Paul" ou "ele", nos situamos ligeiramente fora — olhamos a situação de um ângulo ligeiramente diferente. Essa distância não elimina as emoções, mas reduz sua intensidade e cria mais espaço para o raciocínio adaptativo.

Estudos experimentais mostraram que a "fala distanciada consigo mesmo" (falar de si como um terceiro em seu diálogo interno) melhora o desempenho durante falas em público estressantes, reduz as ruminações após um evento emocional difícil e favorece um raciocínio mais equilibrado sobre decisões importantes — reduzindo os vieses relacionados à implicação emocional pessoal.

Iléismo e narcisismo: a conexão é mais complexa do que parece

Há uma associação popular entre iléismo e narcisismo — a ideia de que falar de si na terceira pessoa seria um sinal de grandiosidade ou de autoimportância exagerada. Essa associação não é totalmente infundada: alguns estudos encontraram uma correlação leve entre o iléismo frequente e certos traços narcisistas, e figuras públicas conhecidas por seus comportamentos narcisistas às vezes foram citadas como exemplos de iléistas.

Mas a relação é mais complexa. O iléismo pode servir a muitos fins muito diferentes — e seu significado depende inteiramente do contexto. O mesmo fenômeno linguístico pode ser uma estratégia de regulação emocional adaptativa, um traço retórico deliberado, um jogo afetivo, ou — em certos casos e contextos clínicos — um sintoma de distúrbios da autoconsciência.

🔍 Contexto 1 — Benéfico

O iléismo como ferramenta de regulação

Falar consigo mesmo na 3ª pessoa em momentos de estresse intenso ("O que Marc faria nesta situação?") para criar uma distância emocional e melhorar a qualidade das decisões. Uso consciente, deliberado, limitado a contextos específicos.

🔍 Contexto 2 — Retórica

O iléismo como efeito de estilo

Referir-se a si mesmo na 3ª pessoa em um discurso público, um texto ou uma comunicação formal para projetar uma imagem de autoridade, objetividade ou distanciamento. Convenção estilística bem codificada.

🔍 Contexto 3 — Afetivo

O iléismo informal e lúdico

Falar de si mesmo na 3ª pessoa em contextos afetivos ou humorísticos próximos — com seu parceiro, amigos, filhos. Muitas vezes um traço de personalidade ou uma convenção relacional sem significado psicológico particular.

🔍 Contexto 4 — A examinar

O iléismo persistente e invasivo

Utilização sistemática da 3ª pessoa para se referir a si mesmo em todos os contextos de comunicação, incluindo formais, sem consciência do efeito produzido nos interlocutores. Pode merecer atenção clínica se recente e associado a outras mudanças cognitivas ou comportamentais.

Iléismo e neurologia: quando o "eu" perde seus ancoradouros

A consciência de si — essa capacidade de se representar como um sujeito distinto, de distinguir "eu" do resto do mundo — é uma função cognitiva complexa que se baseia em redes cerebrais específicas, notadamente o córtex pré-frontal medial, o córtex cingulado anterior e algumas regiões parietais. Lesões ou disfunções dessas redes podem afetar a consciência de si — e às vezes se manifestar por perturbações na forma como uma pessoa se refere a si mesma na linguagem.

Iléismo em alguns distúrbios neurodesenvolvimentais

Nos distúrbios do espectro autista, dificuldades na utilização dos pronomes pessoais — e notadamente a confusão ou o atraso na aquisição do pronome "eu" — são às vezes observadas, especialmente em perfis com dificuldades de linguagem significativas. Essas dificuldades estão relacionadas a especificidades no tratamento da perspectiva do outro (teoria da mente) e na representação do eu como ponto de referência linguístico.

Iléismo em distúrbios dissociativos

Em alguns distúrbios dissociativos, notadamente o transtorno dissociativo de identidade, indivíduos podem falar de certas "partes" de si mesmos na terceira pessoa de forma sistemática — um fenômeno que reflete a fragmentação da identidade subjetiva. Esse uso da terceira pessoa é qualitativamente muito diferente do iléismo retórico ou afetivo.

Iléismo e demências

Em algumas formas avançadas de demência, e notadamente nas demências frontotemporais que afetam as redes da consciência de si, perturbações no uso dos pronomes pessoais podem aparecer. Um paciente pode começar a se referir a si mesmo na terceira pessoa de forma incoerente ou invasiva — um fenômeno que pode confundir o entorno e os cuidadores. Neste contexto clínico, o iléismo é um sintoma, não um traço de personalidade.

⚠️ Quando o iléismo merece atenção clínica

O iléismo torna-se clinicamente significativo quando é: recente (mudança em relação ao comportamento habitual), sistemático e invasivo (todos os contextos), sem consciência do efeito produzido sobre os interlocutores, acompanhado de outras mudanças cognitivas ou comportamentais (memória, personalidade, comportamento social). Nesse caso, uma avaliação médica e neuropsicológica é indicada.

O iléismo como ferramenta psicológica deliberada

Além de suas manifestações espontâneas, o iléismo pode ser utilizado de forma deliberada como ferramenta de desenvolvimento pessoal e de regulação emocional. Esta aplicação prática é baseada em pesquisas sérias — mesmo que continue a ser considerada como uma ferramenta complementar em vez de uma terapia.

O "auto-diálogo distanciado" na gestão do estresse

Quando se está confrontado com uma decisão difícil, uma fala estressante, ou uma situação emocionalmente intensa, perguntar-se "O que [nome] deveria fazer nesta situação?" em vez de "O que eu deveria fazer?" pode reduzir a ativação emocional e melhorar a qualidade do raciocínio. Essa mudança de perspectiva minúscula — do "eu" para o nome ou para "ele/ela" — é suficiente para criar uma distância psicológica mensurável.

✔ Como usar o iléismo como ferramenta de regulação emocional

  • Perante uma decisão difícil: escrever ou dizer mentalmente "O que [seu nome] deveria fazer aqui?" e então escrever a resposta como se estivesse aconselhando um amigo
  • Antes de uma fala estressante: dizer a si mesmo "CARMEN pode lidar com isso. CARMEN está se preparando." em vez de "Estou estressada, vou me sair mal"
  • Após um evento difícil: analisar a situação na 3ª pessoa para reduzir as ruminações e acessar uma perspectiva mais equilibrada
  • No diário ou na prática de escrita reflexiva: alternar entre "eu" (para a expressão emocional) e a 3ª pessoa (para a análise)

💡 O illelismo e a plena consciência

O "auto-fala distanciada" compartilha alguns mecanismos com a plena consciência (mindfulness): ambos criam uma distância entre o indivíduo e seus pensamentos/emções imediatas, reduzem a identificação fusional com os estados internos e favorecem uma observação mais desapegada da experiência. Ambos podem ser usados em conjunto como estratégias de regulação emocional complementares. O termômetro das emoções DYNSEO pode ajudar a identificar e graduar os estados emocionais — um primeiro passo para sua regulação consciente.

O illelismo na cultura e na história

O illelismo atravessa a história e as culturas. Além de Júlio César, outras figuras históricas e contemporâneas usaram ou usam o illelismo em sua comunicação pública. No esporte de alto nível, alguns atletas falam de si mesmos na terceira pessoa — um fenômeno que foi muito discutido na mídia. Essa prática pode refletir uma construção identitária particular, uma dissociação entre o indivíduo privado e a "marca" pública que eles representam, ou uma estratégia retórica deliberada.

Em algumas culturas, o uso da terceira pessoa para se referir a si mesmo é convencional e educado — especialmente em certos contextos formais japoneses, ou em algumas tradições religiosas onde a humildade exige não se designar pelo "eu" dominante. O significado cultural do illelismo varia, portanto, consideravelmente de acordo com os contextos.

Funções cognitivas envolvidas no illelismo

O illelismo mobiliza funções cognitivas complexas que explicam por que pode ser tanto um sintoma de distúrbio quanto uma ferramenta terapêutica.

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Consciência de si

Referir-se a si mesmo pelo nome implica perceber-se como um objeto de representação — uma forma de meta-cognição sobre sua própria identidade.

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Tomada de perspectiva

O illelismo implica uma capacidade de ver a si mesmo "de fora" — adotar uma perspectiva alocêntrica (centrada em outro ponto de vista) sobre sua própria situação.

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Regulação emocional

A distância criada pelo illelismo reduz a ativação do córtex pré-frontal medial envolvido nas ruminações e na autorreflexão negativa.

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Funções executivas

O uso deliberado do illelismo como estratégia implica inibição (resistir ao "eu" automático), planejamento e flexibilidade cognitiva. O teste das funções executivas DYNSEO permite avaliar essas capacidades.

O illelismo é sempre um sinal de narcisismo?

Não — é um dos mitos mais difundidos sobre esse fenômeno. O illelismo pode ser retórico, afetivo, deliberadamente terapêutico, ou culturalmente codificado. A relação com o narcisismo existe em alguns perfis e contextos, mas não é nem sistemática nem causal. O significado do illelismo depende inteiramente do contexto, da frequência e da consciência que a pessoa tem sobre isso.

O "auto-diálogo distanciado" é realmente comprovado cientificamente?

Os estudos de Ethan Kross e al. (Universidade de Michigan) mostraram efeitos robustos do auto-diálogo distanciado na reatividade emocional e na qualidade das decisões em estudos experimentais controlados. Os mecanismos neurais envolvidos (redução da ativação do córtex pré-frontal medial) foram confirmados por imagem cerebral. Esses resultados são sérios, mesmo que repetições adicionais sejam sempre úteis.

O ilheísmo pode ser um sintoma da doença de Alzheimer?

Perturbações no uso dos pronomes pessoais podem aparecer nos estágios avançados de algumas demências, notadamente as demências frontotemporais que afetam as redes da consciência de si. Mas o ilheísmo isolado não é diagnóstico da doença de Alzheimer. É o aparecimento recente de um ilheísmo sistemático, sem razão aparente, acompanhado de outras mudanças cognitivas, que pode merecer uma avaliação.

Como distinguir um ilheísmo benigno de um ilheísmo clinicamente significativo?

O ilheísmo benigno é estável ao longo do tempo, limitado a certos contextos (afetivo, retórico, deliberado), e a pessoa está ciente do efeito que pode produzir. O ilheísmo clinicamente significativo é recente, invasivo (todos os contextos), sem consciência do efeito produzido, e vem acompanhado de outras mudanças. Em caso de dúvida, uma avaliação médica é sempre preferível.

Conclusão: o ilheísmo, um fenômeno fascinante entre língua, psicologia e cognição

O ilheísmo é muito mais do que uma bizarrice linguística ou um sinal de narcisismo. É um fenômeno rico, com múltiplas faces — ferramenta retórica milenar, estratégia de regulação emocional eficaz, traço afetivo benevolente, ou, em alguns contextos clínicos raros, sinal de uma perturbação da consciência de si. Sua compreensão ilumina questões fundamentais sobre como nos representamos, como gerenciamos nossas emoções, e como a linguagem e a cognição interagem.

Se você deseja explorar suas próprias funções cognitivas, descubra nossos testes cognitivos online — incluindo o teste das funções executivas que avalia as capacidades de tomada de perspectiva e regulação relacionadas ao ilheísmo. E se você é um profissional de saúde, nossas formações aprofundam os vínculos entre linguagem, cognição e distúrbios neurológicos.

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